Gordura no figado pode regredir na masld

A gordura no fígado pode regredir na esteatose hepática (MASLD)

Compartilhe esse artigo

A gordura no fígado pode regredir, e esse costuma ser o primeiro alívio para quem acaba de receber esse diagnóstico. É comum imaginar que a doença vai inevitavelmente evoluir para cirrose ou que o fígado já sofreu um dano permanente, mas essa não é a realidade na maioria dos casos.

A esteatose hepática, atualmente denominada MASLD (doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica), é uma condição que pode regredir quando identificada precocemente e tratada de forma adequada. O diagnóstico representa um alerta importante sobre a saúde metabólica, mas também uma oportunidade de interromper a progressão da doença.

A mudança de nome, de doença hepática gordurosa não alcoólica para MASLD, não é só uma questão de terminologia. Ela reflete uma compreensão mais recente de que o acúmulo de gordura no fígado está diretamente ligado ao funcionamento do metabolismo como um todo, e não é uma condição isolada do órgão.

O que é a esteatose hepática (MASLD)?

A esteatose hepática caracteriza-se pelo acúmulo de gordura nas células do fígado. Quando esse acúmulo está associado a alterações metabólicas, como obesidade, diabetes tipo 2, resistência à insulina (quando as células do corpo respondem pior à ação do hormônio que controla o açúcar no sangue), aumento dos triglicerídeos ou colesterol e excesso de gordura abdominal, utiliza-se atualmente o termo MASLD.

Essa mudança de nomenclatura reflete um conhecimento mais recente sobre a doença: na maioria dos pacientes, o problema não está apenas no fígado, mas faz parte de um conjunto de alterações metabólicas que aumentam também o risco cardiovascular. É justamente por isso que o acompanhamento da esteatose hepática costuma envolver não só o fígado, mas também exames de rotina para pressão arterial, glicemia e perfil lipídico.

A esteatose hepática tornou-se uma das doenças do fígado mais frequentes no mundo. A Sociedade Brasileira de Hepatologia estima que entre 20% e 30% da população mundial seja portadora da doença, com prevalência ainda maior entre pessoas com obesidade e diabetes tipo 2. Fatores como sobrepeso, alterações no colesterol e histórico familiar entram nessa conta, e um artigo anterior sobre esteatose hepática detalha melhor cada um desses fatores de risco e o diagnóstico diferencial da doença.

Quais são os sintomas?

Na maior parte dos casos, a MASLD não provoca sintomas, especialmente nas fases iniciais.

Quando presentes, eles costumam ser inespecíficos, como:

– cansaço;

– sensação de peso ou desconforto no lado direito do abdômen;

– mal-estar inespecífico.

Por ser uma doença silenciosa, muitas pessoas convivem com a esteatose durante anos sem saber. Isso reforça por que exames de rotina, mesmo sem sintomas, acabam sendo a principal forma de identificar o problema a tempo de agir sobre ele.

Como o diagnóstico é feito?

Na maioria das vezes, a esteatose hepática é descoberta durante exames solicitados por outro motivo. Um ultrassom abdominal pode identificar o acúmulo de gordura no fígado, ou exames de sangue podem mostrar elevação das transaminases (enzimas produzidas pelas células hepáticas).

Após essa suspeita inicial, a avaliação médica procura responder uma pergunta importante: há apenas gordura no fígado ou já existe inflamação e fibrose?

Para isso, podem ser utilizados:

– ultrassonografia abdominal;

– exames laboratoriais para avaliação da função hepática e do perfil metabólico;

– elastografia hepática, exame que estima o grau de fibrose de forma não invasiva;

– biópsia hepática, reservada para situações específicas, quando ainda existem dúvidas sobre o diagnóstico ou sobre o estágio da doença.

A maioria dos pacientes não necessita de biópsia. Escores calculados a partir de exames de sangue simples, como o FIB-4, também ajudam a estimar o risco de fibrose avançada e a decidir quem realmente precisa de uma investigação mais detalhada, evitando exames invasivos desnecessários.

Toda gordura no fígado evolui para cirrose?

Não.

Grande parte das pessoas permanece apenas com acúmulo de gordura no fígado. Entretanto, uma parcela dos pacientes desenvolve inflamação hepática, condição denominada MASH, que pode favorecer o aparecimento de fibrose.

Nos casos em que a fibrose continua progredindo ao longo dos anos, existe risco de evolução para cirrose e suas complicações. Esse processo costuma levar anos, e não meses, o que dá tempo para o tratamento agir antes que o dano se torne mais difícil de reverter.

Por esse motivo, identificar o estágio da doença, e não apenas confirmar a presença de gordura no fígado, é uma etapa fundamental do acompanhamento médico.

A gordura no fígado pode regredir?

Sim, o acúmulo costuma regredir com o tratamento adequado. Segundo a Sociedade Brasileira de Hepatologia, uma perda de peso corporal de 5% já é capaz de reduzir significativamente a gordura hepática, e metas acima de 10% associam-se à melhora histológica e, em muitos casos, à regressão completa da inflamação.

Essa melhora costuma ocorrer de forma gradual. O objetivo não é promover emagrecimento rápido, mas melhorar a saúde metabólica por meio de mudanças sustentáveis nos hábitos de vida.

Quanto mais precoce o tratamento, maiores são as chances de impedir a progressão para fibrose e cirrose.

Como é o tratamento?

A base do tratamento continua sendo a mudança do estilo de vida.

Isso inclui:

– alimentação equilibrada, com padrões como a dieta mediterrânea, rica em vegetais, fibras e gorduras monoinsaturadas e pobre em açúcares e gorduras saturadas;

– prática regular de atividade física, combinando exercícios aeróbicos, como caminhada, com exercícios de força;

– perda de peso quando indicada, de forma gradual;

– controle adequado da glicemia, colesterol e triglicerídeos.

O consumo de álcool também deve ser evitado, especialmente em quem já tem fibrose mais avançada, já que mesmo quantidades pequenas podem agravar o dano ao fígado nesses casos.

Atualmente, alguns medicamentos utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes, como os análogos de GLP-1, também podem trazer benefícios para pacientes selecionados com MASLD. Entretanto, nem todos apresentam indicação para essas terapias, e a decisão deve ser individualizada após avaliação médica.

Não existe um medicamento capaz de substituir hábitos saudáveis, e o uso de fitoterápicos ou suplementos sem orientação médica, na esperança de acelerar o processo, pode até piorar o quadro em vez de ajudar. O tratamento costuma ser reavaliado periodicamente, ajustando a estratégia conforme a resposta de cada paciente aos exames de acompanhamento.

Quando procurar um gastroenterologista?

Mesmo sem sintomas, vale a pena procurar avaliação especializada quando houver:

– diagnóstico de gordura no fígado em exames de imagem;

– elevação persistente das transaminases;

– obesidade;

– diabetes tipo 2;

– alterações do colesterol ou dos triglicerídeos;

– histórico familiar de doença hepática.

O acompanhamento permite identificar o estágio da doença, estimar o risco de progressão e definir a estratégia de tratamento mais adequada para cada paciente. Mesmo quando o exame de imagem mostra apenas um grau leve de gordura, vale levar o resultado a uma consulta, em vez de assumir que, por ser leve, não precisa de acompanhamento nenhum.

O diagnóstico não é uma sentença

A esteatose hepática é uma doença frequente e, na maioria das vezes, silenciosa. Apesar disso, o diagnóstico não deve ser encarado dessa forma.

Quando identificada precocemente, a gordura no fígado pode regredir, reduzindo o risco de inflamação, fibrose, cirrose e outras complicações. O acompanhamento médico é importante para avaliar a gravidade da doença, controlar os fatores metabólicos associados e orientar um tratamento individualizado, com foco na preservação da saúde do fígado e da saúde como um todo.

Diante de um resultado de exame com gordura no fígado, o próximo passo é buscar uma avaliação especializada, e não apenas guardar o laudo para se preocupar sozinho com ele mais tarde.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia outros conteúdos relacionados
Canetas emagrecedoras

Canetas emagrecedoras falsificadas

Quais os riscos para o fígado e para a saúde? A popularização dos medicamentos injetáveis para emagrecimento trouxe benefícios para muitos pacientes quando utilizados sob

Leia mais