Durante muitos anos, o câncer colorretal em jovens foi considerado praticamente uma raridade na prática clínica, já que a doença era vista como típica de pessoas acima dos 50 anos. Nos últimos anos, no entanto, estudos realizados em diversos países, incluindo o Brasil, mostram um aumento consistente da incidência desse tipo de câncer em pessoas mais jovens, sobretudo abaixo dessa faixa etária.
Embora a maioria dos casos ainda ocorra em pessoas mais velhas, essa mudança tem chamado a atenção da comunidade médica e reforça a importância de valorizar sintomas que, muitas vezes, são atribuídos a causas benignas.
Por que isso está acontecendo?
Até o momento, não existe uma única explicação para o aumento dos casos em adultos jovens. Acredita-se que diversos fatores estejam envolvidos, e boa parte deles ainda é estudada como hipótese, não como causa comprovada.
Entre eles estão mudanças no estilo de vida observadas nas últimas décadas, como alimentação rica em alimentos ultraprocessados e carnes processadas, baixo consumo de fibras, sedentarismo, obesidade e maior consumo de bebidas alcoólicas. A fibra alimentar, presente em frutas, verduras e grãos integrais, ajuda a manter o trânsito intestinal regular e reduz o tempo de contato entre substâncias potencialmente nocivas e a parede do intestino, o que pode explicar parte da associação entre dietas pobres em fibras e o risco da doença. Já o excesso de alimentos ultraprocessados e carnes processadas tende a andar junto com maior inflamação crônica no organismo, outro fator associado ao desenvolvimento de tumores.
Esse conjunto de fatores também altera a microbiota intestinal, o equilíbrio de bactérias que vive no intestino e participa da digestão, e pode favorecer um ambiente inflamatório propício ao desenvolvimento de lesões. Pesquisadores estudam ainda o papel de fatores ambientais e do uso frequente de antibióticos ao longo da vida, embora nenhuma dessas hipóteses tenha, até o momento, relação causal definitivamente comprovada isoladamente.
Em uma parcela dos pacientes, fatores hereditários também são importantes. Pessoas com histórico familiar de câncer colorretal ou síndromes genéticas, como a Síndrome de Lynch (condição hereditária que aumenta o risco de câncer colorretal e de outros tumores ao longo da vida) e a Polipose Adenomatosa Familiar (doença genética que leva ao surgimento de múltiplos pólipos no intestino já na juventude), apresentam risco aumentado e podem precisar iniciar o rastreamento em idade mais precoce.
Quais sintomas merecem atenção?
O câncer colorretal costuma ser silencioso nas fases iniciais. Quando surgem sintomas, eles podem ser confundidos com doenças benignas, como hemorroidas ou alterações funcionais do intestino, o que contribui para que sejam minimizados por quem os apresenta.
Procure avaliação médica se apresentar:
– sangue nas fezes, mesmo em pequena quantidade;
– mudança persistente do hábito intestinal, como diarreia, prisão de ventre ou alternância entre ambas;
– dor abdominal recorrente;
– sensação de evacuação incompleta;
– perda de peso sem causa aparente;
– anemia por deficiência de ferro, especialmente quando não há outra explicação.
Esses sintomas não significam necessariamente câncer, mas precisam ser investigados, principalmente quando persistem por mais de duas a três semanas. Isoladamente, cada um deles pode ter origem em condições simples e comuns, mas a persistência é o que diferencia um sintoma passageiro de um sinal que merece investigação.
Por que o diagnóstico pode atrasar?
Em adultos jovens, é comum que tanto o paciente quanto os profissionais de saúde atribuam inicialmente os sintomas a condições mais frequentes nessa faixa etária, como hemorroidas, síndrome do intestino irritável ou estresse. Essa é justamente a lógica que, segundo estudos sobre o tema, mais contribui para o atraso no diagnóstico do câncer colorretal em jovens: a doença simplesmente não entra na lista de possibilidades antes de outras causas mais comuns.
Essa interpretação pode retardar a investigação adequada e atrasar o diagnóstico por semanas ou meses, tempo em que a doença, quando presente, continua evoluindo silenciosamente. Por isso, a persistência dos sintomas deve sempre ser valorizada, independentemente da idade do paciente, e não apenas descartada por parecer estatisticamente improvável para a faixa etária.
Quando fazer a colonoscopia diante do risco de câncer colorretal em jovens?
A colonoscopia é o principal exame para diagnóstico e rastreamento do câncer colorretal. Além de visualizar todo o intestino grosso, o exame permite identificar pólipos (lesões benignas que, ao longo do tempo, podem dar origem ao câncer) e removê-los durante o próprio procedimento, prevenindo o desenvolvimento da doença antes mesmo que ela se instale.
Para pessoas sem fatores de risco, parte das diretrizes médicas atuais já recomenda iniciar o rastreamento aos 45 anos, valor que pode variar conforme a sociedade médica e o país. É justamente essa idade de corte que está em debate diante do aumento de casos em adultos mais jovens, um tema que o Instituto Nacional de Câncer (INCA) também acompanha de perto.
Já indivíduos com histórico familiar de câncer colorretal, doenças inflamatórias intestinais ou síndromes hereditárias frequentemente precisam iniciar a investigação bem mais cedo, definida caso a caso com o médico responsável. Independentemente da idade, a presença de sintomas de alerta já é, por si só, indicação para investigação diagnóstica.
O diagnóstico precoce faz diferença
Quando identificado nas fases iniciais, o câncer colorretal apresenta maiores chances de tratamento curativo. O diagnóstico é realizado por meio da colonoscopia com biópsia das lesões suspeitas e, após a confirmação, costumam ser necessários exames complementares de imagem para definir a extensão da doença, o chamado estadiamento, e assim orientar o tratamento mais adequado a cada caso.
O manejo do câncer colorretal geralmente envolve uma equipe multidisciplinar, com abordagem clínica e cirúrgica definida conforme o estágio da doença no momento do diagnóstico. De forma geral, tumores identificados em estágios iniciais, ainda restritos à parede do intestino, têm prognóstico bem mais favorável do que aqueles já diagnosticados em estágios avançados, com comprometimento de outros órgãos. Quanto mais cedo a investigação começa, maior a chance de a doença ser tratada nessa fase inicial, o que impacta diretamente o prognóstico.
É possível reduzir o risco?
Embora nem todos os casos possam ser prevenidos, algumas medidas ajudam a reduzir o risco de desenvolver câncer colorretal:
– manter alimentação rica em frutas, verduras, legumes e fibras;
– limitar o consumo de carnes processadas e alimentos ultraprocessados;
– praticar atividade física regularmente;
– manter peso saudável;
– evitar o tabagismo;
– consumir bebidas alcoólicas com moderação;
– realizar o rastreamento na idade recomendada ou conforme orientação médica.
Essas medidas não eliminam o risco por completo, já que fatores hereditários e outros elementos ainda não totalmente compreendidos também têm papel na doença. Ainda assim, atuam sobre os fatores de risco com evidência mais consistente até o momento.
Quando procurar um gastroenterologista?
Sangue nas fezes, alteração persistente do hábito intestinal, dor abdominal recorrente ou anemia sem causa aparente não devem ser considerados normais, mesmo em pessoas jovens e sem histórico familiar da doença.
A avaliação com um gastroenterologista permite identificar a causa real dos sintomas, indicar os exames necessários e, quando indicado, realizar o diagnóstico precoce. No caso do câncer colorretal em jovens, reconhecer os sinais de alerta e investigar precocemente, em vez de esperar que os sintomas passem sozinhos ou de assumir que a idade descarta a hipótese, pode fazer toda a diferença no sucesso do tratamento. Diante de qualquer um desses sinais persistentes, vale procurar uma consulta em vez de aguardar que o quadro se resolva sozinho.




